segunda-feira, 11 de novembro de 2013

se todo o nosso pudesse se resumir em batidas inquietas,

nesses ritmos quase lentos, nesses tropeços brutos do sax.
nesses cigarros compartilhados que dão mais de um maço
voltar com a velha crença que me encontrei em seus braços.



é sempre essa velha história de não saber o que dizer.
de acordar na tarde e pensar que você está no seu trabalho. que hoje nada mais que eu faça vai me fazer encontrar você... será que a gente pode fugir enquanto você compra pão? eu sempre te espero ansiosamente pelo amanhã. logo na manhã e carregar, em que me mergulho por todas aquelas vozes e consigo achar a tua. - como eu amo isso!
eu rio comigo mesma só de perceber que eu acordo e penso em você.  eu rio comigo mesma só de lembrar em você e depois eu rio mais um pouco por perceber que você está me fazendo rir... e depois eu rio mais um pouco, porque dá medo mas ainda tem sua graça. é que por mais triste seja ter de partir, minha ida seja tão breve quanto a sua estadia, não posso mais mentir ou esconder o quanto te gosto. de verdade. e que eu não tô aqui por simples desperdício de tempo... eu sei que eu disfarço bem, com meu riso sempre tão exposto, meu andar quase leve, minha timidez que vez em quando bate, me fazendo olhar instintivamente para o chão, mesmo assim vestindo o sorriso que você me dá.
eu sei que eu disfarço bem mas você sabe que é verdade. eu sei também.
então a gente troca umas risadas silenciosas pelo corredor, depois de uma noite que a gente dormiu pensando na gente e a gente ri e volta a fazer nossas coisas e mais tarde nessas coisas, a gente ri se lembrando de quem a gente é agora. e mesmo que seja peso, é tão engraçado quanto desesperador quando a gente encontra com o que é,o que pega todas suas formas, todas suas cores, todas as suas dores e é. é.
e não consegue ser pesado. não há correntes e bolas penduradas pelo pé. é ter um abrigo em todo esse contexto caótico e extrapolado, ter um lugar, pertencer. e não um contexto caótico e extrapolado no seu próprio abrigo. esse ponto se destaca para mim. hoje em dia tão pouco sei onde moro, o que eu carrego, o que eu devo ou vou carregar. nem sei ao certo o que eu sou. mas você me dá uma clareza e firmeza que nunca pude encontrar. eu escrevo para registrar, algo que vai ser passado. vai ser pesado. vai me deixar.
e eu partirei antes.
eu não queria te enxergar por trás dos meus olhos cinzentos e tristes, a vida é muito maior do que todas essas rimas, todo esse jogo, todas essas cores que transbordo. você me faz acreditar que todos os valores e termos podem mas não se resumem ao estar lá e estar no momento.
pegar a estrada logo pela noite, deixar o ar e o vento entrar, cheiro de cigarro, cheiro de mato e o seu cheiro também.e ela poderia se resumir facilmente em estar com você e te observar pelo canto dos olhos, enquanto toca morphine. e sua mão vai se aproximando lentamente da minha "xoxotinha" - e eu me imaginei te perguntando qual seria o melhor termo e você me diria isso depois de algumas tentativas de um jeito bem sacana e seu mesmo. e eu comecei a rir. e eu vou te colocando pela minha cabeça, criando outras histórias, outros momentos, outros diálogos. porque é fácil te encaixar nos meus contextos. é sempre leve, base, sólido. as vezes parece bobo, mas a gente leva a sério. por trás daquelas palavras sacanas, a minha verdade nua do jeito que ela é. por trás dos meus risos sujos, seus olhos me acompanham e me lembram que é ainda sim, uma causa nobre.
eu não quero te complicar, te tentar encaixar na minha vida, te moldar de outras formas. eu gosto de olhar pro céu que a gente sabe que é azul e além de lindo e sublime eu ainda acho umas pinceladas rosadas no meio dele, bem leves, quase diluídas. eu gosto de sorrir e me lembrar de você. gosto de te associar com qualquer coisa boba, notar as colinas do mato enquanto remo de volta pra terra e elas formarem e me lembrarem o seu rosto. se eu pudesse pedir qualquer coisa no fundo do meu coração, eu pediria você. eu pediria que se por algum acaso bom, eu talvez possa ficar com você pra sempre. seria tão fácil e simples. porque no fundo quando eu noto o que  me falta e o que eu quero, são coisas simples como a sua sombra. por perto, calado, manifestando sua presença, permanência. se eu pudesse pegar uma dessas coisas que mais gosto do mundo, acho que pegaria mesmo você, de trinta e poucos anos, insônias pesadas, nada muito limpo, nada muito valioso. eu quero tudo. quero soma. quero estar. meu deus, como te gosto. como fico frenética querendo te encontrar. deixando escapar tudo por um segundo que posso encontrar com sua presença. e como sempre, a gente ri e olha pro chão, porque a gente sabe.
talvez não seja o  tempo certo, nem o lugar. mas é. e só por isso, todo o amor desse mundo já basta.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

meus capitães (de areia)

com o passar de cada dia, com o encontrar toda manhã, notei a convivência ritmada, o apego e afeto que são mais importantes do que qualquer intelecto. qualquer livro de quintana, cada estrofe de pessoa, cada acorde de beethoven.

me vi apaixonada cada vez mais por cada segundo gasto que não tem volta, encontrando poesia nos poços de água, com lixos, bitucas de cigarro e flores. me vi apaixonada pelo meu próprio riso, tão natural quanto impróprio. e cada fala ritmada e rimada em verso, mesmo que em gíria e do avesso. 

me vi apaixonada por cada pessoa em especial, por uma ou duas. na verdade são mais de dez que fazem meu dia. que me deixam em pé, que não é preciso ser uma manhã sempre tão chata, porque estar aqui me faz mesmo um quase estrangeiro, mas não tira o lar que meu coração se instalou. 

é com uma dor pesada e uma alegria leve que me fazem ser poesia, ser arte e ser cor, mesmo não sendo nem fazendo nada disso. veja bem, eu poderia te contar desde o começo. mas nem ele tem tanto significado como tem o agora.

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fumava cigarros/ recitando poemas de quase mortos/ ouvindo jazz para não se fundir com a (de)pressão./ sete xícaras de café por dia/ dois maços e meio/ quarenta e poucos quilos/ cabelos que parecem rosas/ riso leve pra desmentir o peso/ tristeza que andava ao lado do peito esquerdo.
olhos de cigana/ sentimentos a serem descobertos/ insônias pesadas./ sonos pesados/ camadas de maquiagem tentando consertar qualquer defeito/ ela queria o amor./ e queria ser amada.
mas sem motivo aparente,/ a tristeza bateu de modo urgente/ e mesmo batendo, foi indo./ vivendo/ sobrevivendo./ não queria gastar seu tempo./ mas gastava todos seus sábados a noite, dopada, chapada./ "vivendo."
foi então primavera/ e primavera significa grandes feitos/ tornou-se dourada./ tornou-se tornado./ conheceu Trovato./ rapaz nem tão jovem e sua poesia/ hoje em dia, virou sofrimento./ trovato-tornado/ tinha a tornado/ uma menina com aparência de mulher/ que tanto procurara/ e abatida, o encontrara./ e naqueles dias sem sentido/ esse fato se tornou sentimento./  em dias mais gastos/ maquiagens apagadas/ voltando pra casa sempre desacompanhada/ trovava pro nada/ esperava pela solução dos problemas,/ com o estalar dos dedos.
guria que havia tido tudo/ tinha todo o mundo/ embrulhava e presenteava seus sentimentos/ sempre incompreendida/ sempre meio sozinha/ vivendo com certo receio./ músicas chapadas/ amigos sempre mais velhos/ camas sujas de quase adultos ocupadas por meia noite./ ia embora assim por ter mais sentido./ do que estar sentindo.
um dia acordara/ de cara amassada/ a maquiagem não disfarçava todos seus feitos./ todos seus anos e efeitos./ não sabia se vivia numa máscara/ não sabia vivia mesmo uma vida/ pouco falava em casa/ mais falava chapada./ seis horas da manhã logo cheios de fumaça/  desgosto em estar/ com vontade de pertencer/ onde nunca foi convidada para entrar./ poderia ter sido só um amor errado/ mas ela era./ toda errada.
fez suas malas/ "vou parar de desperdiçar meu tempo."/ "vou parar com esse tal de sofrimento."/ "eu me arranjo, eu me viro."/ "de qualquer jeito."

-

então eu cheguei aqui. com pedras na mão que conforme o tempo, foram substituídas por rosas. cheguei aqui com o cabelo gasto, a cara pálida, uns quilos a ganhar. umas dores a se perder. é tudo uma questão de tempo, mesmo que acanhada e dolorida, fui em frente, cabeça erguida, peixe fora d'água. quase que insolente, pois se me atirassem pedras, é da minha natureza humana, revidar.
é uma questão de armadura, casco, proteção. eu estou em pé, ando sempre em frente, não olho para a face de ninguém enquanto entro pelas manhãs. mal me conheciam, motivo para estar lá, eu tinha. e com o tempo, descobriram. me descobriram. me descobri também.

foram processos e passos lentos e dolorosos. não sabia mesmo onde ia parar, mesmo indo do colégio para casa direto todos os dias. comecei a fazer uma verdadeira terapia, me enchi de filmes, cores, fui me despedindo aos poucos. deixei ir aos poucos. perdi coisas que deveriam ter sido perdidas há mais tempo. e o fato real era que eu era cheia de gente que me enchia, mas quem me ama vai até o final. a pessoa que meses atrás me fez ser uma menina de 12 anos apaixonada, que me levou a loucura, a pessoa que eu mais me importava e respeitava, foi a única que me deixou no meio desse caminho. eu não tinha levado o que os outros me diziam a sério, porque de uma forma ou de outra, deixei de me importar com as palavras que podiam me ferir. talvez porque eu não tinha nenhuma palavra valente ou importante de quem eu me importava. e aos poucos, fui deixando. foi perdendo os pontos. um processo lento de se despedir. e os outros sendo importantes, sendo presença, sendo quem eram. hoje tão pouco sei quem é.

aos poucos, fui encontrando poesia. fui encontrando vida. na verdade, não demorou muito. me acharam louca e fora do comum logo de cara. eu era a única paulistinha do colégio inteiro. já me conheciam, fosse mais pela fama do meu pai do que quem eu pudesse ser, por mais que atraísse a atenção dos outros como se estivesse num circo. me acharam intelectual demais, talvez chatinha demais. ouve música e lê palavras que ninguém compreende. parei de me maquiar, me arrastava, a única fumante do colégio. pintei as madeixas e com um certo tempo, fui me apegando. fui sendo. conquistando. eles são. eles vão. eles continuam me conquistando. as vezes acho meio descartável esse tipo de sentimento, mas eles podiam ser meus capitães de areia. nada marginalizados. de riso fácil. pé sempre na areia. de dar e receber. estar e se divertir. nem eu sei porque os amá-los tanto. mas foi algo sobre estar sintonizada, aceitar, dar. ser. e é tão simples que como num passe de mágica, eu já tinha o coração deles. por mais que eu acredite que o meu foi deles antes dos deles serem meus.  é uma simples questão de gostar do meu riso verdadeiro e sentir carinho pelo tom de voz. é se relacionar com quem puder, se puder.

é que eu me vejo constantemente dando risada porque eu amo até esse vento que me bate na cara, do cheiro de chuva na terra, de café caseiro feito quatro horas da tarde, lou reed no vinil, meu pai plantando pés, meu tio bolando um, a tv bem baixa nos lembra dos problemas que não fazem parte desse nosso pedaço de terra. os sábias cantando loucamente, o sol deixa o céu meio alaranjado, os passarinhos disputando pelo bidê de água com açúcar, minha cadela fica louca com o lixeiro e todo mundo manda ela ficar quieta. são as sombras das plantas sob a casinha do meu pai que eu posso escrever versos,arro posso tirar tantas fotos, pintar tantas coisas, mas eu fico no canto, vendo e falando com o vento, fumando um cigarro meio encantada, mais grata, completa. e a última vez que eu vi a lua, eu ouvi sua voz e me fez sorrir. e eu chorei. eu chorei. eu chorei porque agora que tanto tenho, me tenho, amo, encanto, encontro, cada vez mais, poesia, vida, motivo, eu devo ir.
minha vida parou por quase um ano inteiro, mas tudo isso tem um grande motivo para mim. tantos. infinitos. e é tanto, que amo, que gosto, cada segundinho mais doído que percebo como tanto gosto desse cachorro, dessa terra, desse canto de grilos, dessa chuva preguiçosa, dessa minha avó linguaruda, desse meu pai meio carrasco, meu tio meio louco, meu outro tio meio entristecido. dessa gente toda, que cada segundinho que passo mais, mais eu gosto, mais acho motivo, mesmo que tolo para se admirar. tanta poesia que eu ainda não fiz, tanta história que eu pensei mais não vivi, tanta coisa que eu conquistei e agora eu não vou poder ter nenhum pouquinho mais? é sempre assim, não é? quando você acha motivos, quando você acha vida, quando você acha arte mesmo não conseguindo colocar no papel, quando você acha alguém... quando você acha alguém que coloca todas as suas questões em pauta e as descarta discretamente enquanto eu não estou olhando. quando você encontra amigos, motivação. ah, eu amo vocês. todos vocês, planta, pássaro, cachorro, vó, vizinha, amiga da tia, tia da cantina, rosalinda, daiane, eu também amo você. professor, eu também amo você. ei você... foge comigo e vamos descobrir o que é a vida. me leva pra sair mais alguns dias, pra outros estados, novas ruas, novas histórias. céus, como os gosto. como os carrego calorosamente todos os meus dias.
ah vocês, tanta poesia que podia ser escrita
e mesmo ainda sem ter partida
já tem uma dor em ter de carregar vocês
apenas no meu coração.

domingo, 3 de novembro de 2013

"ei moça, aceita uma carona?"
e no meio de 71 quilômetros que só hoje foram poucos demais para serem percorridos, ele aumentou o Lou Reed e começamos a cantar juntos de uma forma tão natural quando íntima... eu já sabia. não sei se ele também, mas ele costuma ser bem mais sábio do que eu. todas suas palavras soltas colaram na minha mente. então o que aconteceu foi melhor do que pretendíamos. puta que pariu, é que você não permite "biografias não autorizadas sobre sua vida de merda" e eu tenho mania de te achar sempre engraçado. e sorrir na frequência que suas peles de galinha aparecem, ou são elas que captam meu sorriso. eu gosto de como você sempre sorri e me faz rir mas isso não significa que eu não te levo a sério.
eu levo tudo muito mais sério do que deveria. talvez meus anos muito novos e histórias feitas ainda não me tenham feito ver a vida de um modo realístico e sim muito sonhador. eu poderia falar sobre os astros, o porque disso e mais disso, mas eu tenho mania de nutrir. e água deixa a terra fértil e a gente pode crescer.
é que foi num desses meus momentos em que eu precisava de um conselho e todos os adivinhos ou quase videntes ou entidades qualquer coisa que fosse me diziam. e agora sempre te encontro. eu não queria, mas faz parte de mim. eu nunca sei muito bem o que esperar. mas o que quer que seja, que seja. e eu vou fazer valer a pena, porque você já faz.
de uma maneira disfarçada, despercebida, ocultada. o que é simplesmente é.
e eu gosto de ti por isso mesmo.

tempos do café/ da poesia.


manhãs de domingo,
nove horas com tons altos e leves.
me lembrando já do ontem,
onde me joguei em teus braços,
me encontrei nos teus olhos,
me embaracei com tanto clichê.

me lembrando do ontem,
em que acordei,
com uma visita inesperada
me chamando
para ter nem que seja
trinta minutos ganhando um dia.

me lembrando do hoje,
mesmo cansada,
o sono que se acabava,
o sol se manifestava.
junto a tom zé
e o cheiro de café,
nove horas da manhã.

do fumo partilhado,
do estar junto, reunido.
do dia estar tão bonito.
tudo soar o bem.
a alegria em realizar
se reflete no meu amar
os outros,
pelo riso,
pelo grito,
pela voz.

dias que,
poesia não basta,
sonhar não basta.
ver, viver.
isso sim.
estar.
é o que eu preciso.